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Paulo Eduardo F. de Campos *

A arquitetura moderna resulta da ocorrência de múltiplas circunstâncias relacionadas com o desenvolvimento progressivo da pesquisa científica e tecnológica, além da radicalização da investigação artística e do confronto de modelos de controle do desenvolvimento urbano (BENEVOLO, 1985). Cada uma destas questões, a seu tempo, evoluiu separadamente no contexto cultural do início do século XX, interessando aqui particularmente o papel da pré-fabricação, seja como fundamento utópico do Modernismo, seja como ferramenta capaz de equacionar programas massivos de construção, a exemplo do ocorrido por ocasião da reconstrução da Europa no segundo pós-guerra.

É evidente o fato de que o grande painel pré-fabricado de concreto foi o logotipo da reconstrução da Europa destruída pela II Grande Guerra. No entanto, seria muito restrita nos dias de hoje uma definição de industrialização calcada nos modelos de pré-fabricação do segundo pós-guerra, visto que tais modelos vêm passando já há algum tempo por uma profunda revisão em seus próprios países de origem (SALAS, 1981).

A tendência de industrialização de ciclo aberto e a política de produção de componentes deram margem ao aparecimento, no final da década de 1980 e início dos anos 1990, daquilo que se convencionou chamar na Europa de a "segunda geração tecnológica" no campo da industrialização da construção. Os sistemas construtivos de ciclo aberto, ou seja, aqueles constituídos em suas partes fundamentais pelo emprego de elementos pré-fabricados de várias procedências, passaram a ser a marca desta segunda geração. Segundo Salas, costumam ser características definidoras dos sistemas abertos de pré-fabricação:

  • a coordenação dimensional que possibilite unir o maior número de elementos e produtos de distintas procedências.
  • o catálogo de elementos padronizados, que possibilita ao usuário uma informação exaustiva sobre o produto, de modo a facilitar o seu emprego.
  • o raio de ação tanto maior quanto mais específicos sejam os elementos pré-fabricados.
  • a flexibilidade dos processos de produção, de modo a atender encomendas de produtos especiais, tirando de linha produtos que se tornaram obsoletos, combatendo a tendência de fechamento paulatino do processo etc.
  • a montagem dos componentes pré-fabricados por terceiros, já que os fabricantes preferem se responsabilizar, sobretudo, pelo bom comportamento de seus produtos.
  • a possibilidade de manter elementos de catálogo em estoque, especialmente se ocupam pouco volume.

A pré-fabricação nos dias atuais

Desde os anos 1980 processa-se entre os países da Comunidade Econômica Européia, para citar o exemplo mais conhecido, uma espécie de industrialização sutil. Uma industrialização da construção que muitas vezes prescinde de grandes gruas, mas que leva à obra produtos pré-fabricados com um maior valor agregado do que se levava antes, na forma de componentes com um alto grau de acabamento.

No caso brasileiro, face aos desafios colocados pela economia globalizada e as crescentes necessidades de se construir com rapidez, qualidade e economia, alguns destes componentes pré-fabricados passaram a ser oferecidos no mercado nacional há alguns anos atrás, como é o caso dos painéis arquitetônicos e banheiros prontos (figura 1), para citar dois exemplos. As demandas hoje existentes sob a forma de centros comerciais, hotéis, edifícios de escritórios e residenciais, indústrias etc. levaram a construção civil a criar novos paradigmas.

Independentemente da chegada destes novos produtos pré-fabricados ao mercado através da instalação no país de empresas estrangeiras, constata-se também a existência de um representativo parque produtor já instalado no país na área da pré-fabricação, parque este que já é fornecedor habitual de componentes para a construção de edifícios industriais, comerciais e habitacionais há várias décadas. É diante desta realidade que se colocam as possibilidades para o aperfeiçoamento e o desenvolvimento de novos produtos pré-fabricados para a indústria da construção civil, com base nas potencialidades e na real capacidade já instalada no país.

Uma visão prospectiva daquilo que pode ser chamado um "mercado aberto de componentes" na realidade da construção civil brasileira, por sua vez, conduz à questão do projeto e da atividade de desenvolvimento de produto, o que ultrapassa o simples "somar produtos de diferentes procedências". Além da retaguarda normativa, sobre a qual obrigatoriamente deve apoiar-se uma industrialização de ciclo aberto, também pressupõe-se aquilo que se chama de projeto aberto.

Tradicionalmente, entende-se como elementos industrializados desde as peças mais simples até os diferentes painéis, lajes de piso etc. A derivação qualitativa do conceito de elemento até o de componente sugere a individualização das partes de uma edificação em sub-sistemas, tais como cobertura, vedações, fundações etc. Os sub-sistemas, constituídos como agrupamentos de elementos, tendem a ser unidades auto-suficientes de desenvolvimento e agregação, unidades funcionalmente unitárias e independentes entre si, com respeito à função e possibilidades de desenvolvimento. Dentro desta visão, o componente construtivo seria resultado da decomposição do organismo arquitetônico em unidades auto-suficientes ou unidades de projeto. Sendo assim, o significado adquirido pela expressão "sistema construtivo" em nossos dias equivale ao conjunto de componentes entre os quais se possa atribuir ou definir uma relação, coordenados dimensionalmente e funcionalmente entre si, como estrutura organizada.

Paulo Eduardo Fonseca de Campos é arquiteto, mestre em Engenharia Civil e doutor em Arquitetura e Urbanismo. É diretor da Precast Consultoria e Desenvolvimento do Produto, coordenador do Comitê de Painéis Arquitetônicos da ABCIC e assessor do Subprograma XIV do Programa Ibero-americano CYTED. Foi diretor de Projetos e Desenvolvimento da Pavi do Brasil Pré-fabricação - e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

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